Acho que eu tinha ido ao banheiro. Não lembro direito. Só lembro que as filas eram grandes. As filas nos banheiros de bar são sempre grandes, mesmo que quatro ou cinco pessoas estejam lá dentro. Há outras cinco aqui fora querendo entrar. Naquele tempo eu demorava porque às vezes quando ia ao banheiro, invariavelmente encostava no muro lá fora e ficava um tempo olhando as pessoas entrando e saindo, todas atônitas, uma espécie de formigueiro boêmio. Quando voltei pra minha cerveja e pro meu mundo estritamente particular que é o meu mundo num canto seguro do balcão, notei o olhar amedrontado e constrangido do meu amigo. Bastou que eu acompanhasse o olhar dele pra entender a razão. Sua mulher tava em cima do palco se esfregando no guitarrista. Acho que eu me senti ainda mais constrangido que ele. Ela olhava pra onde seu marido estava e sorria voluptuosamente como fazem as mulheres quando querem provocar os demônios em seus homens. O guitarrista também estava sem jeito, mas preferiu não perder a oportunidade. O outro guitarrista também se aproximou e foi beijado no pescoço. Queria falar alguma coisa, qualquer coisa como “essa bosta de cerveja nunca tá gelada, né?” Mas não conseguia falar nada. Sequer consegui chegar perto dele. Fiquei de longe, na lateral do campo, rezando pro técnico me esquecer ali e não solicitar minha entrada em campo. As pessoas no bar pareciam curtir a performance da minha amiga que bêbada como estava, ao ser aplaudida e incentivada, parecia ficar cada vez mais a vontade. As pessoas costumam aplaudir esse tipo de atitude. Deve ser algum tipo de vingança, nunca vou conseguir entender. Alguns amigos chegaram perto dele numas de se solidarizar ou como costumam fazer alguns “amigos”, escarnecer ainda mais da má sorte do cara, sem que ele perceba que isso está acontecendo, é claro. E ele realmente conversou com eles como se nada estivesse acontecendo. Com o canto do olho continuava perscrutando o palco. A banda atacou um blues sensual, o que fez com que minha amiga abrisse um sorriso do outro mundo. Ela passou a ser bolinada na frente de todos. Meu amigo abaixou a cabeça e saiu. Fiquei segurando meu copo de cerveja na mão. Nesse momento a cerveja já tava quente pra caralho. Quando minha amiga notou que o seu marido havia saído, seu rosto se encheu da tristeza mais verdadeira. É como se mais nada tivesse sentido na vida. Ela se abaixou e sentou na beirada do palco. A banda continuou tocando. Fui até a porta do bar. Lá fora, meu amigo conversava com algumas pessoas tentando disfarçar sua tristeza. Lá dentro minha amiga já não conseguia disfarçar porra nenhuma.
Ao contrário do que dizem por aí, a noite não costuma acolher as pessoas mais tristes e solitárias.
Mário Bortolotto
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